quarta-feira, 29 de junho de 2011

62 anos


Da esquina vi o muro alto, foi ali que disseram que ele estaria. A cor azul não agradou muito, mas destoava bem das outras casas, o que não decepcionou. O muro só fazia a moldura para o portão que ocupava grande parte da frente da casa e permitia uma visão completa dela.

Quando passei na frente do portão os cachorros começaram a latir, o que o fez sair pela porta. Acredito que ele tenha estranhado os cachorros estarem confusos entre latir e chorar, como quando ele chegava.

Sei lá como isso deve funcionar, mas imagino tudo como um grande deja-vú, do início dos latidos até a hora que sentamos para conversar. Nem imagino o que sentirei, o grande prazer deve estar ai.

A primeira pergunta dele, após se abraçar, foi: como é possível?

Não sabia responder. Estava lá e pronto.

Cada um com um cachorro no colo, fazendo as mesmas gracinhas.

- Como está a Pepsi? – ele perguntou.

Não pude segurar as lagrimas que escorreram, senti que não precisava, mesmo tendo a consciência de que sempre tentava conter, mesmo sozinho.

Sei lá porque senti aquele nó na garganta, deve ter sido pela situação tão singular ou por imaginar a vida sem minha magrela.

- Ela está ótima, do mesmo jeito que você deve lembrar, querendo dormir na cama embaixo do edredom, me acordando todos os dias com aquele chorinho de alegria e correndo igual a um coelho na rua.

Ai, quem ficou com os olhos mareados foi ele.

Deu para sentir que seria uma conversa difícil.

Colocando-me na posição dele – o que não foi difícil – tentei imaginar o que falaria. Só que com 62 anos não conseguia nem vislumbrar como estaria.

Não parecia tão afobado quanto hoje, imagino que não como ontem também, mas as pernas balançando, as mãos sempre fazendo algo e os olhos inquietos continuavam iguais.

A aparência era esperada, só imaginei com mais tatuagens, talvez tenha me tornado mais conservador com o passar dos anos.

Não sabia quanto tempo iria durar, mas tinha a certeza que nunca mais ocorreria, então resolvi aproveitar o tempo.

Durante aqueles longos segundos que passaram tentei formular a pergunta que daria inicio.

O leque de temas era muito amplo, qual área deveria abordar? Com o que deveria me preocupar? Não sei por que - e até hoje procuro entender – fiquei tão preocupado com o que ele ia pensar de mim.

Com certeza esse é o mal que mais me aflige e ali na minha frente, onde deveria me sentir totalmente à vontade, estava encanado com isso. Porra, já tinha até chorado!

Qual conselho poderia ser dado para aliviar o peso de viver? Em qual área precisava de algum conselho? Um só ponto de alívio. Estava ali na frente de alguém que poderia me aconselhar a ter uma vida mais fácil em algum sentido e nenhuma pergunta meu cérebro conseguia formular.

Olhei para aquela casa, aquele monte de cachorro:

- Sou casado? – foi o que saiu.

Ele riu!

- Não vou responder isso.

- Antes que isso acabe, gostaria de lhe dar um só conselho, afinal lembro-me que você não conseguirá fazer nenhuma pergunta.

- Relaxe. Você não tem como controlar tudo. – Continuou rindo.

- Esse é o conselho?

- Veja que sei o quanto sofri com isso e quanto isso maximizou nossa dor. Entendo o quanto isso está enraizado em você e espero que cheguemos aqui de uma forma muito mais tranquila.

-

3 da manhã, terça-feira, 2011 – estava no visor do celular, enfiei no bolso rapidinho.

Lugar estranho, tudo escuro, deserto. Levantei batendo a sujeira sem entender nada, desci duas vielas quase correndo, uma grande avenida, um táxi.

Estava de volta.



terça-feira, 7 de junho de 2011

Sílvia


No início do ano recebi uma carta muito estranha. A história contada chamou muito minha atenção, mas não levei muito a sério, imaginei que fosse um engano e ignorei. Até receber duas outras.

Carta já é uma coisa estranha por si só hoje em dia, redigida com máquina de escrever nem se fale, mas só a primeira veio assim, a segunda chegou escrita a mão com caneta e a terceira a lápis numa mistura de letra de forma e cursiva, todas com meu nome e endereço corretíssimos. Mas ainda o mais curioso não foi o fato de cada uma ter sido escrita de uma maneira diferente e sim os endereços de postagem, duas vieram de bairros diferentes de Osasco e uma chegou a mim vinda do interior do Paraná.

Compreendi - aceitei, sei lá - o risco que minha correspondente dizia estar correndo – só terei a comprovação se não mais receber suas cartas – e me solidarizei, não sei por que.

Tenho certeza de que ela está omitindo seu nome, mas mesmo assim criarei um codinome para ela. Também fiquei um pouco receoso, mas acredito que escondendo certos dados, além dos que ela provavelmente está escondendo, o risco que corro é muito pequeno. Sem contar que Silvia diz ter outras pessoas que a ajudam para que as cartas cheguem a mim e a outros destinatários de forma que ninguém se comprometa.

Com algumas pessoas sabendo, ela acredita que as informações não se perderão.

Silvia foi esposa de um militar de alta patente que pediu exoneração para concorrer a um cargo eletivo logo após a redemocratização do Brasil. Disputou, mas não conseguiu vencer, contudo devido ao seu relacionamento e influência conseguiu emprego em algumas empresas públicas durante as legislaturas do Collor, Itamar e FHC. Só que seu suposto cargo era só uma fachada para que ele pudesse executar alguns serviços para algo como um “consórcio ilegal” formado por empreiteiras, forças armadas do Brasil e outro(os) país(es) da América Latina, empresas de armas e personalidades influentes – políticos, grandes empresários e alguns militares aposentados.

Inicialmente os serviços eram os de um lobista comum, praxe em democracias corruptas como as da América do Sul. Ele articulava “entendimentos” entre empresas e governos para que os interesses do grupo que ele representava fossem alcançados.

Ele nunca tinha sonhado em trabalhar com isso, inclusive tinha muita vergonha de ganhar a vida assim, tanto que evitava frequentar certos lugares se não estivesse a trabalho, com a família gozava de uma vida muito confortável, só que muito reclusa.

As coisas começaram a mudar quando sua filha aos 4 anos sofreu um acidente fatal. A criança foi atropelada dentro do condomínio em que moravam. Como já era esperado, Silva quase enlouqueceu. Usou todo o dinheiro e influência que possuíam para punir o atropelador, inicialmente sem muita ajuda de seu marido, pois, segundo ele, estavam ocorrendo eleições municipais no Peru e ele precisava estar lá.

Acompanhar o enterro foi tudo que ele fez.

Passados 4 meses da morte da criança, ela conseguiu que seu marido se afastasse por um mês e meio do trabalho. Ela só insistiu porque acreditou que ele a ajudaria, já que até então não tinha conseguido resolver nada. Mesmo tendo se empenhado pessoalmente em muitas tarefas, ter trabalhando pra si os melhores advogados e investigadores particulares disponíveis e gasto muito grana com propina. 

Ninguém tinha anotado a placa, apesar do condomínio ter diversos seguranças, o circuito interno de TV não estava funcionando naquele dia e nenhuma testemunha foi encontrada. Nem mesmo o depoimento das crianças que brincavam com sua filha no momento do acidente ela conseguiu, os país, aparentando medo, proibiram. Sem saber se era paranóia de mãe traumatizada, ela sentia que as pessoas estavam evitando ela e evitando ajudá-la.

Resolveram mudar para fugir das lembranças – foram para algum outro país – isso sob a promessa dele de cuidar de tudo. A irmã de Silvia foi com ela.

...


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Demais


Sorriso puro, livre
Arqueada, insegura

Transpira imaturidade
Inebria o ambiente
A leveza de ser quem é
Corrigida pelo ideal, bruto

Força, empenho e água
Doces saem suas palavras
Reina a naturalidade virgem
Cala-se a vivência, assiste

Opta pela introspecção
Alcança todos os olhares

A beleza óbvia
Deleita qualquer um
Ofusca-se apenas
Pelo discreto e exuberante, ser




sábado, 30 de abril de 2011

Uma Semana



Segunda-Feira

Mercado

- Opa, com licença?! – educado.

- Oiii! Tudo bem? Nossa que saudades!!! – felicidade.

- Hummm!! – nunca vi na vida.

- Nossa! – 3 beijinhos.

- Éééé. – realmente, nunca vi na vida.

- Desculpe moço, mil desculpas, o Rogério tem uma pinta no pescoço! – confundiu.

Terça-Feira

Shopping

- O senhor poderia me acompanhar até a sala da segurança?! – cassetete em punho.

- Não gostaria! – puto.

- Com todo o respeito, o senhor poderia facilitar o trabalho? – truculento.

- Não gostaria! – mais puto.

- Vamos? – mais quatro chegando.

...

- Ahhh! Só um mal entendido, confundiram, sei, sei, entendi! – puto “level 32”.

Quarta-Feira

Balada

2 horas da manhã, após alguns drinks:

- "Vamo cola ali com a mina que to pegando, ela tá com uma amiga!" - amigão

- Vamos! – inseguro.

Ela dançando, ele lá com a outra. - pista vazia.

Balançada de cabeça – inseguro, sorriso amarelo.

Quatro passos alternando os lados! – cara de borracha.

- Ow, vou ali pegar uma bebida! – fuga.

Quinta-Feira

Na rua

- Mudou há pouco tempo, né? – um lindo sorriso.

- Sim, 2 meses e você, mora aqui faz tempo? Onde? – animado.

- Ali, naquele predinho da esquina, o vermelhinho. – simpática.

- Hummmm, que legal! Nossa quase aluguei um apartamento ali, mas nem cheguei a ver como é dentro, são todos iguais? – tática.

- Sim, quer ir ver? – entendeu a tática.

- Sim!! Vamos!! – peguei as sacolas, cavalheiro.

...

- Estava fazendo um trabalho pra faculdade. – sentou no sofá.

- Você estuda o..... – beijo.

Sexta-Feira


Na rua, de novo

- Moço, ei, psiu, mooooço!! – corridinha e cutucão no ombro.

- Oi!! – tirando os fones do ouvido.

- O senhor deixou isso cair! – entregou uma carteira, 200 reais.

- Cara de dúvida – olhando os documentos.

- Então, tá! – foi embora.

- Obrigaaaadooo! – falso.

...

- Alô, achei a carteira de uma pessoa que talvez você conheça. – simpatia.

- Sim, sim, é do meu filho, nossa ainda bem que você achou, muito obrigada!

...

- Tó amigo, pode ficar com o dinheiro, só de não ter perdido meus documentos... – agradecido.

- Não, não, para com isso! De nada, não precisa, É SÉRIO! – justo.

Sábado:

Em casa

Telefone toca:

- Alô!!! – voz sorridente.

- Alô, tudo bem? Tá aqui no Brasil, tá aqui em São Paulo? – voz sorridente.

- Sim, sim, cheguei ontem a noite! – animada.

- Caramba, nem sabia que tinha seu número cadastrado ainda! E nem imaginava que você estava com o mesmo número. – animado.

- Vai fazer o que agora a noite?

- Não tinha nada marcado – mentira.

- Vamos jantar? – solitária.

- Claro, passa o endereço, vou tomar um banho e lhe pego ai!

...

Ela linda, linda demais, fomos jantar, bebemos, comemos, conversamos e rimos, muito!

...

Voltei para minha casa, com ela! – Opa!

...

NADA! – tá!

Domingo

...



sexta-feira, 15 de abril de 2011

Ciúmes


Sentado em seu chesterfield desgastado, comprado usado embaixo do minhocão, repetindo o que tem feito nos últimos 4 anos, passa os canais da TV sem dar atenção, o notebook no colo com as páginas de praticamente todas as redes sociais existentes abertas, clicando em atualizar, uma por uma, confere se tem algo de novo sobre aquelas centenas de pessoas que não conhece.

Naturalmente nada muda, àquela hora da madrugada ou estão vendo pornografia ou trabalhando – irrita-se

Começa a ficar aflito com os barulhos estranhos em seu prédio e os devaneios vão longe – assim parece mais fácil encarar a insônia, imaginar como seria se algo sério estivesse acontecendo com algum de seus vizinhos – o que faria, que atitude heróica tomaria? Até que seria bom se aquela maldita do 3º andar... sufoca!

Tudo estava indo bem, sua rotina intocada há algum tempo, o trabalho rendendo a graninha que ele precisava para viver, podia até se dar ao luxo de viajar e comer em restaurantes caros eventualmente e a solidão não mais incomodava. Na realidade gostava daquela situação, depois de ter namorado algumas vezes e chegado até a dividir a vida e a casa, hoje estava muito a vontade só. Passava de vez em quando por altos e baixos de melancolia, mas nada que um sexo casual, um baseado e uma cerveja não resolvessem.  

A experiência já lhe permitia ter controle total da situação, com naturalidade saltava de um relacionamento para outro antes de se envolver demais, mantendo-se assim blindado contra aquela sensação incomoda de saudades, preocupação, vontade, raiva e irritação que todo relacionamento proporciona. Nada de obrigações, sogra, cachorro, casamentos de primos, visitas a amigos de faculdade chatos, podia dedicar-se ao ócio quando nada tinha pra fazer.

Se até das saudades estava imune, os ciúmes lhe pegaram muito de surpresa!

O que era aquilo? Nem conhecia aquela pessoa, se a tivesse cumprimentado duas vezes seria muito.

Ridículo! – convenceu-se.

Nada, nem uma dorzinha lhe afetou nos últimos tempos, mesmo quando acabaram seus longos relacionamentos de 4 meses e 7 encontros! Agora isso!

Sempre foi uma simples questão de lógica, movimentos certos e nada de se envolver, movimentos errados e perdia o rei, já sabia se movimentar sem tomar choque, sem encostar o arquinho no fio.

Quantas vezes não tinha feito aquilo? Alguma coisa estava realmente errada.

Porra! – reclamou.

Como podia ir para casa com um nó na garganta causado por uma pessoa que nem conhecia?!

Você acha que existe isso? Merda! – aumentou o som!


Em casa, bolou um, abriu uma cerveja e o celular – melhor aplicar a fórmula anti-melancolia, não custa tentar - supôs!



segunda-feira, 14 de março de 2011

Amnésia alcoólica


10 para uma o telefone toca, um convite para almoçar, sonolento, ainda tentando entender murmura que por ser domingo pretendia acordar mais tarde mesmo e desliga.

No visor do celular ainda era sábado! Como pode ter cometido esse erro, o que está acontecendo?!

Nos últimos dias tudo estava muito estranho! O que tinha sido aquilo na noite anterior? Até as 23hs, legal, tudo estava nos conformes, tinha saído de um restaurante fuleiro e ido para um bar, o bar também não era aquelas coisas, mas o pessoal que freqüentava parecia bem interessante.

Algum engraçadinho tinha dado a idéia de beberem uma cachacinha, uma só, e foi ai que começou, ou que terminou!

Por que era tão fácil se convencer a continuar bebendo? A lógica era tão simples, uma semana pulando de ressaca em ressaca e mesmo assim era simples aliciarem-no a beber mais um pouquinho.

As horas se passaram no balcão, mas ele já não estava mais no balcão, e agora dava conta de que também aquela não era sua casa!

Caramba!!!!

Perae, conhecia aquele vestido pendurado, mas não estava conseguindo identificar. O barulho dos carros na rua era alto, devia estar em alguma grande avenida, não, o barulho era de só um carro, ou melhor, caminhão, parecia alguma obra, talvez fosse um trator.

Uma leve inclinada na cabeça o fez lembrar de cada uma das bebidas que tinha bebido desde que nascera, também o fez prometer não beber mais pelas próximas 4 gerações, a única coisa que não lembrava era o que tinha bebido na noite anterior.

A ressaca parecia de vinho de 4 reais, era como ter acordado com uma talhadeira encravada entre os dois lados cérebro, não, não mesmo, parecia que estava encravada do lado direito um pouco atrás e acima da orelha.

Tentou fechar os olhos com força e induzir a volta do sono, talvez pudesse acordar de volta a realidade. Uma, duas, três vezes e percebeu que aquela era a realidade. Puxou o cobertor, apesar de claramente já ser dia, o quarto estava bastante escuro, uma coisa que em sua casa nunca conseguiu ter, resolveu aproveitar mais um pouco.

10 minutos passaram...

Não dava, a preocupação era grande, tinha saído de carro, estava com mais de 100 reais no bolso, cartões de crédito, documentos e definitivamente não conseguia lembrar para onde tinha ido depois daquele bar.

Pelo jeito tinha sido bem tratado, a casa ou apartamento que estava não era tão ruim assim, apesar de não ser tão bom, estava com todos seus órgãos em seu corpo, sua roupa estava dobrada em uma cômoda e as roupas que estavam aparentes eram de mulher.

Pegou um vestido preto que estava pendurado no mancebo, cheirou e não reconheceu o perfume, era gostoso, o tamanho era P.

- Oi!!! Bom dia! – gritou

Deu alguns passos

- Bom diiiia! – gritou novamente

Nada.

O banheiro estava vazio, mas em sua cara dava para ver que a noite tinha sido longa, lavou o rosto, fez um bochecho com pasta de dentes, colocou a roupa e foi até a cozinha. Abriu a geladeira e só tinha uma coca-cola zero, pegou e foi bebendo ver o resto do apartamento.

Agora já tinha sacado pela janela da sala que estava num andar alto de um prédio estranho na região da Paulista.

Abriu a porta do guarda-roupas, as gavetas da cozinha, da sala e do banheiro e nada que pudesse identificar de quem era aquela casa foi avistado.

Um bilhete:

Bom dia!
Talvez você não lembre, mas a noite foi ótima! rs
Beijos  

Ahhhh! Letra de mulher, graças a Deus!!!!!!

Pegou suas coisas, verificou se havia dinheiro em sua carteira, 20 reais, milagre! Não encontrou a chave de seu carro, nem adiantava ficar mais preocupado.

Abriu a porta, saiu, trancou, desceu até o térreo, estava quase no final do saguão e ouviu:

- Psiu! A Dona Ana pediu para eu não esquecer de pegar a chave dela com o senhor!

- Obrigado!

Entregou a chave que estava em um chaveiro de morcego e foi embora! 

Ana?



segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Tempo pra gastar


Um exercício constante é necessário para não cuidarmos da vida alheia, hoje tenho certeza disso.

Algumas pessoas não conseguem sufocar o ímpeto de dar pitaco onde não é chamado. Pessoas que parecem não perceber que não são exemplos, mas que mesmo assim acham-se no direito de dar conselhos e o pior tipo de conselho: o conselho cheio de razão!

Quando vemos o Warren Buffet na TV dando dicas de como ficar rico percebemos prontamente a credibilidade que embasa aquelas opiniões, obviamente isso acontece porque a própria vida do cara prova de que ele sabe do que fala, o mesmo acontece quando vemos o Tarcísio Meira falando de um casamento duradouro ou mesmo o Lula falando de perseverança e fé no futuro.

Mas como é difícil conseguir opiniões como essas, de quem deveria dar sempre conselhos, não é?

Acredito que isso aconteça porque quem foi lá e fez, em 99% dos casos tem a humildade de reconhecer as dificuldades, entender que tudo tem muitos pontos de vista e nunca se vê o dono da razão.

Por esse motivo tenho uma grande dúvida:

- É difícil fazer o paralelo entre opinião e consultoria?

Imagino que qualquer um que precise saber de algo e pretenda contratar um consultor, procure no mercado o profissional com maior experiência, com mais tempo de mercado e com maior conhecimento na área que se propõe a trabalhar/opinar/dar parecer.

A lógica é simples, não tem como aconselhar alguém a parar fumar com um cigarro aceso entre os dedos, assim como não tem como aconselhar alguém a ter uma vida feliz transparecendo o fracasso em todas suas relações.

Contudo não tem jeito, acho que esse tipo de abordagem não segue princípios lógicos, até porque se seguisse não haveria pessoas agindo assim, já que o ensinamento mais antigo é:

- Não dê opinião sem que ela seja solicitada!

Esse conselho milenar baseia-se na idéia de que o interessado em uma opinião, naturalmente, procurará alguém que acredite ter credibilidade, experiência e imparcialidade para dissertar sobre o assunto de forma que possa ajudá-lo em algo. Afinal, opiniões que não ajudam em nada, podem ficar armazenadas no imenso disco rígido cerebral dos que não tem nada para fazer e teorizam a vida alheia.

Entendo também que a essa altura da minha vida já não deveria me preocupar com isso, pois essa é uma característica da natureza como um todo e não somente das relações entre humanos.

Durante um tempo criei peixes e percebi que os mais sem graça, mais sem cor, com o comportamento menos peculiar, nascem em qualquer lugar, comem qualquer coisa, vivem muito e não precisam de muitos cuidados. Já aqueles peixinhos lindos, coloridos, com comportamento apaixonante, uma inteligência fenomenal, invariavelmente precisam de grandes cuidados, são difíceis de encontrar, vivem pouco e comem coisas raras, caras e específicas. Isso também acontece com vegetais, com os minerais e com as criações humanas.

Veja a música, normalmente as pessoas com os piores gostos musicais são as que fazem questão de gastar tudo que ganham colocando som no carro para ligarem no último volume e obrigar todos a engolirem aquilo. Com as criações musicais também fica evidente que os artistas de maior talento são raros.

Por isso que hoje quando uma coisa vem muito fácil, pode ser música, peixes ou/e principalmente opiniões, já faço logo o desvio do canal auditivo e ligo-o ao intestino, assim fica tudo em seu devido lugar.



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Um dia


O despertador toca às 7 horas, ela se deixa dormir mais uns sete minutos e com salto assustado sai da cama, corre para o banheiro.

Ele já está de pé desde às 5:05 da manhã, faltando 15 minutos para às 7 já saiu dos portões da empresa.
Claro, homem prevenido como é e também por trabalhar com segurança privada, nunca sai de casa sem a sua 765.

A essa altura, o estresse já tomava conta de 70% de sua consciência, após atravessar metade da cidade e tendo encontrado os sete primeiros semáforos fechados, ela sente vontade de esmurrar o painel de seu Uno.

Em 97 não era tão comum carros com ar condicionado e São Paulo nessa época parece a casa do sete-peles.

Suando, do alto de seus 1,95, ele só pensava como seria bom se a Avenida Francisco Morato estivesse livre e se seu carro fosse grande como aquela X5 que estava na pista do lado com os vidros fechados e uma velhinha que lembrava bastante uma tartaruga sem casco.

Até comentou isso com o Alysson que estava no banco ao lado e só tinha ido hoje para substituir o Tião, parceiro dele há 5 anos nas jornadas em defesa do patrimônio alheio.

Agora já tinha perdido as contas do número de sinais fechados, a única coisa que sabia é que já estava muito longe da Estrada do M’Boi Mirim, no comecinho da Faria Lima – ou seria o fim – nunca entendeu como funcionavam essas coisas.

A rádio tocava uma música do Belo e Alysson acompanhava tudo batendo o pé e usando o puxador da porta como pandeiro, olhando dali, de cima da Ponte Eusébio Matoso, parecia que as coisas estavam melhorando, depois de quase uma hora na mesma avenida seria um sonho demorar só mais 15 minutos para fazer aquele trecho.

Realmente as coisas pareciam estar melhorando. O carro já conseguia manter 17 km/h por 1 minuto e 10 segundos, o que era um milagre naquele horário! Por isso ela fez questão de anotar em um pedaço de papel, queria lembrar para contar a noite para seu marido. Ultimamente andavam um pouco sem assunto, então sempre que conseguia anotava o que achava interessante para ver se conseguia transformar em uma conversa.

O locutor em um tom cordial anunciava os 57 quilômetros de trânsito que embelezavam a cidade, indignado ele reclamava para o Alysson que naquele momento só conseguia apontar, segurar no puta-merda e tencionar as pernas quase amassando o assoalho, o Uno Bege com uma mulher olhando para baixo já tinha se fundido ao seu golzinho 5º geração.

Naturalmente puto, antes mesmo de ouvir a primeira frase completa que começava com:

- SEU FILHO DA PUTA DO CARAL...

...já tinha disparado 5 vezes, 3 balas estavam pela lataria do carro e duas no peito da moça que agora estava quieta, branco, com a arma ainda quente na mão, olhava para os lados enquanto o Alysson descia do carro, vermelho...


domingo, 30 de janeiro de 2011

Experiência sociológica bizarra


Imagino a cena:

O cara chega sozinho na porta e resolve entrar.

Parece que todos estão olhando para ele.

Pensa: o que vão pensar de mim? Parece que não tem ninguém sozinho aqui.

A cada passo dado parece que os olhares o seguem, olhares de reprovação.

Vai para aquele canto mais escuro, onde todos estão bêbados dançando, ali devem deixa-lo em paz.

Nada! Todos os olhares continuam massacrando-o.

O jeito é beber!

Vai até o bar bombardeado por aquela incansável chuva de olhares e pede uma Heineken, pensa em beber outra coisa mas não quer que ninguém repare, resolve manter-se no lugar comum e ficar com a cerveja mesmo.

Volta para pista.

Na sequência musical que segue ensaia leves movimentos pra lá e pra cá. Olha para os lados e mesmo em meio às danças bizarras e livres que o cercam sente-se intimidado para se soltar, claro, apesar de ter diminuído o número de pessoas que o observam, o tanto que continua ainda é aterrorizante.

As horas passam, a quantidade de álcool ingerida aumenta vertiginosamente e nada muda.

A essa altura ainda ileso todos a sua volta conversam com alguém!

Resolve dar uma circulada, expor-se um pouco mais! Lembra que ficou sozinho em vários momentos da outra vez que foi com uns amigos, mas agora sozinho parece muito mais difícil.

Todos já devem ter sacado que ele está sozinho ali.

Anda um pouco, encontra uma clareira não muito grande e para. Não sabe onde colocar as mãos. Ficar de braço cruzado é estranho, braços pra trás, mão no bolso, fica um pouco perdido, resolve pegar outra cerveja. Volta e para no mesmo lugar. Calor, insegurança, a cerveja vai como água e logo está novamente sem saber o que fazer com as mãos.

Começa a tocar mais coisas legais, volta para a pista, lá o ambiente parece mais seguro.

Mais alguns passos descoordenados, alguns olhares intimidadores, alguns momentos de solidão, algumas trocas olhares, alguns goles de cerveja, algumas lembranças da ressaca que virá.

4:30, asséptico, assim como chegou, vai embora!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Você tem que ser feliz


Final de ano, chega a época de ficar feliz, você não tem outra opção, você tem que ficar feliz!

13º salário, nascimento de Jesus, a esperança de tudo mudar com a virada, os amigos secretos, as festas de confraternização, se você não fica feliz...

Sei que estatísticas, notícias, ou qualquer menção aos suicídios é “proibida” na mídia, um acordo velado para não incentivar pessoas que ainda estão na dúvida, mas uma coisa que sempre me deixou curioso foi saber o número de pessoas que se matam nessa época.

Penso naquela tia gorda, ainda solteira aos 49 anos, morando em seu apartamento ao lado do minhocão com seus 8 gatos, naquele senhor que já perdeu a sua esposa, seus filhos estão morando em outras cidades, seus netos são muito novos para lhe visitar, no gordinho branquelo que sofreu bullying a vida inteira e por isso não foi convidado ou não se sentiu à vontade para ir  àquela animadíssima casa em Mongaguá ou mesmo naquele coitado que soube que a esposa o trocou por outro no dia 28 de dezembro e mudou-se para Niterói.

Como deve ser difícil estar triste numa hora em que todo mundo é obrigado a ser feliz e a cada 30 segundos dizer:

- Feliz 2011, muita saúde, paz e prosperidade.

Contagem regressiva, Faustão conclamando você a pegar, que seja, um copo d’água e viver momentos de alegria. Tony Ramos apreensivo, Vera Fisher mordendo o ombro junto com o Fábio Assunção, que a essa altura não agüenta mais segurar o sorriso. Galvão Bueno dando um zoom pelo país, as câmeras  mostrando somente pessoas de branco, com toda a família reunida, bêbados, sorrisos inexplicáveis, mesas fartas, coloridas e você lá, trancado em seu apartamento com cheiro de mofo olhando para o telefone.

Passam-se 10 minutos do novo ano, 20, 25, 1 hora e nada, você mexe atrás do aparelho, verifica a tomada – só pode ser defeito – então o celular treme, toca, um SMS chegou, as esperanças se renovam, você verifica e é uma mensagem da TIM agradecendo por você ser um cliente tão especial e lhe desejando um 2011 maravilhoso. Nessa hora você cai na real e lembra que não tem amigos, que o seus telefones só tocam quando alguém se interessa pelos seus serviços de manutenção de software ofertados no Guia Mais e que a relação mais próxima que tem de alguém é naquela comunidade do Orkut, você liga o computador e percebe que todos os fóruns estão estáticos, tenta ir dormir, mas o barulho das festas nas ruas e na vizinhança não deixam.

A janela está logo ali e você sabe que do 18º andar não tem volta.

Como deve ser difícil estar triste a essa altura, ou mesmo simplesmente não ter motivos para comemorar gastando centenas de reais em fogos, em bebidas ou pernis e/ou mesmo ser muito realista e saber que nada vai automaticamente mudar.


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