Da esquina vi o muro alto, foi ali que disseram que ele estaria. A cor azul não agradou muito, mas destoava bem das outras casas, o que não decepcionou. O muro só fazia a moldura para o portão que ocupava grande parte da frente da casa e permitia uma visão completa dela.
Quando passei na frente do portão os cachorros começaram a latir, o que o fez sair pela porta. Acredito que ele tenha estranhado os cachorros estarem confusos entre latir e chorar, como quando ele chegava.
Sei lá como isso deve funcionar, mas imagino tudo como um grande deja-vú, do início dos latidos até a hora que sentamos para conversar. Nem imagino o que sentirei, o grande prazer deve estar ai.
A primeira pergunta dele, após se abraçar, foi: como é possível?
Não sabia responder. Estava lá e pronto.
Cada um com um cachorro no colo, fazendo as mesmas gracinhas.
- Como está a Pepsi? – ele perguntou.
Não pude segurar as lagrimas que escorreram, senti que não precisava, mesmo tendo a consciência de que sempre tentava conter, mesmo sozinho.
Sei lá porque senti aquele nó na garganta, deve ter sido pela situação tão singular ou por imaginar a vida sem minha magrela.
- Ela está ótima, do mesmo jeito que você deve lembrar, querendo dormir na cama embaixo do edredom, me acordando todos os dias com aquele chorinho de alegria e correndo igual a um coelho na rua.
Ai, quem ficou com os olhos mareados foi ele.
Deu para sentir que seria uma conversa difícil.
Colocando-me na posição dele – o que não foi difícil – tentei imaginar o que falaria. Só que com 62 anos não conseguia nem vislumbrar como estaria.
Não parecia tão afobado quanto hoje, imagino que não como ontem também, mas as pernas balançando, as mãos sempre fazendo algo e os olhos inquietos continuavam iguais.
A aparência era esperada, só imaginei com mais tatuagens, talvez tenha me tornado mais conservador com o passar dos anos.
Não sabia quanto tempo iria durar, mas tinha a certeza que nunca mais ocorreria, então resolvi aproveitar o tempo.
Durante aqueles longos segundos que passaram tentei formular a pergunta que daria inicio.
O leque de temas era muito amplo, qual área deveria abordar? Com o que deveria me preocupar? Não sei por que - e até hoje procuro entender – fiquei tão preocupado com o que ele ia pensar de mim.
Com certeza esse é o mal que mais me aflige e ali na minha frente, onde deveria me sentir totalmente à vontade, estava encanado com isso. Porra, já tinha até chorado!
Qual conselho poderia ser dado para aliviar o peso de viver? Em qual área precisava de algum conselho? Um só ponto de alívio. Estava ali na frente de alguém que poderia me aconselhar a ter uma vida mais fácil em algum sentido e nenhuma pergunta meu cérebro conseguia formular.
Olhei para aquela casa, aquele monte de cachorro:
- Sou casado? – foi o que saiu.
Ele riu!
- Não vou responder isso.
- Antes que isso acabe, gostaria de lhe dar um só conselho, afinal lembro-me que você não conseguirá fazer nenhuma pergunta.
- Relaxe. Você não tem como controlar tudo. – Continuou rindo.
- Esse é o conselho?
- Veja que sei o quanto sofri com isso e quanto isso maximizou nossa dor. Entendo o quanto isso está enraizado em você e espero que cheguemos aqui de uma forma muito mais tranquila.
-
3 da manhã, terça-feira, 2011 – estava no visor do celular, enfiei no bolso rapidinho.
Lugar estranho, tudo escuro, deserto. Levantei batendo a sujeira sem entender nada, desci duas vielas quase correndo, uma grande avenida, um táxi.
Estava de volta.